Produtos

Há tempos vinha pensando neste assunto que me foi reforçado com um post recente sobre a Maionese Heinz. Neste post, o autor critica a Heinz por dominuir a qualidade da maionese vendida no Brasil.

Este problema vejo em diversos produtos e serviços que são ofertados por aqui:

  • Pacotes de alimentos estão cada vez menores com o mesmo preço ou mais caros
  • Carros com poucos acessórios e inseguros comparados aos americanos e europeus
  • Serviços de telefonia sofríveis e seus péssimos atendimentos de callcenter
  • Eletrônicos a preços surreais e de qualidade inferior aos vendidos nos EUA

Praça e Preço: O Brasil é um grande filé

Como mercado emergente, o Brasil ainda continua sendo muito atrativo para as empresa. Lembrando dos 4Ps do Marketing, o Brasil tem um destaque interessante na Praça e no Preço.

Na Praça, somos um país gigantesco com mais de 200 milhões de habitantes e com proporção continental. Ou seja, um grande mercado consumidor divido em várias regiões com interesses e necessidades distintas.

No Preço, temos poucos produtos disponíveis se comparado aos mercado desenvolvidos, logo o Brasileiro paga caro pelos seus produtos, deixando a margem de lucro bem interessante aos negócios. Além disso, o Brasileiro é bastante acostumado a usar o financiamento (mais conhecido com parcelamento) para fazer compras de grandes valores.

Parece ser uma grande oportunidade de vender bons produtos não?

A grande pergunta é: Por quê fazemos produtos ruins?

1. Excessivo foco no curto prazo

Um mantra importante no time de desenvolvimento no qual trabalho é “É melhor algo bem feito do que algo feito rápido demais”. Sim, tenho o benefício de estar em um time que trabalha com um produto cujos os prazos são flexíveis para que as entregas sejam as melhores possíveis.

Confesso que já errei várias vezes em tentar terminar uma tarefa cedo demais e acabei prejudicando a qualidade da entrega. Felizmente, consegui mudar essa mentalidade e focar em qualidade e quando algo é bem feito, isto trará benefícios para sempre. A regra mais importante que aprendi é que qualidade não é negociável.

Porém, isso não é a realidade da maioria dos projetos e equipes que trabalham em produtos: vejo que o Brasileiro pensa pouco no longo prazo e na sustentabilidade. Isso também se aplica na vida pessoal e na administração pública.

Muitos compram o primeiro carro com 20 anos ou menos de idade, sem pensar que é quase um filho para sustentar. Poucos fazendo um pé de meia para a velhice, gastando o restante do salário em supérfulos ou compras de ostentação. Governo faz contabilidade criativa para melhorar as contas públicas, sem pensar nas consequências no ano seguinte. Obras públicas são subdimensionadas.

Muitas startups americanas não são lucrativas. Google e Amazon têm lucros pífios, pois reinvestem seus lucros no desenvolvimentos de novos negócios. Porém, ao focar no longo prazo, geram muitas coisas: novas tecnologias abertas a todos, redução dos custos e preços, patentes e criam novas indústrias ao seu redor.

2. Regulamentação Governamental, Burocracia e Protecionismo

O Brasil tem uma regulamentação excessivamente protecionista contra produtos estrangeiros e isso nos limita a nacionais de baixa qualidade.

Se um empresário quer abrir uma pequena empresa no Brasil para tentar inovar em algum nicho, vai barrar em uma burocracia infernal. Ou seja, vai gastar 30% a 40% do tempo em resolver problemas que não são relacionadas a atividade fim da em empresa. Não é só tempo, é gasto com profissionais que não estão desenvolvendo em nada o produto da empresa ou cuidando para o desenvolvimento das pessoas, ou seja, desperdício de tempo e dinheiro.

O protecionimo é um caso muito bizarro no Brasil. Protegemos segmentos ruins e prejudicamos segmentos que somos bons, um total contra senso. Exemplo, no Brasil não tenho nenhuma marca automobilística genuinamente brasileira e protegemos excessivamente a indústria com benefícios. O que acontece? Continuamos a ter carros ruins e o empresário com a mesma margem de lucro. Para quê tentar melhorar aqui?

Pior ainda se você tenta importar algum maquinário ou algo relacionado, tendo que pagar inúmeros impostos que inviabilizam a melhora da indústria e serviços locais. Ou seja, temos acesso a recursos ruins que melhorariam a produtividade no que sabemos fazer de bom. Assim, apenas as grandes empresas que têm acesso a capital e têm musculatura financeira conseguem se atualizar e ter acesso a recursos de ponta.

Um exemplo que vivo é a indústria de software onde temos ótimos desenvolvedores mas temos péssimos computadores vendidos no Brasil e serviços de internet sofríveis. Com computadores na área pessoal e corporativa de alta qualidade, seria um ótimo item na produtividade onde somos bons de verdade.

3. Pouco incentivo à Pesquisa e Desenvolvimento

Há poucos anos atrás o Brasil era o país do bacharéis de direito e administradores, formando pessoas aos montes ano a ano. Com a engenharia estagnada na década de 1980/1990, poucos engenheiros exerceram sua real formação.

Eu mesmo quando decidi fazer o meu mestrado na área de Engenharia de Computação e trabalhar ao mesmo tempo, ouvi do meu chefe que não servia para nada. O que vi depois é que nas empresas brasileiras não há espaço para se trabalhar com conhecimento de ponta e acadêmicos são vistos como apenas teóricos inúteis.

Resultado: Hoje quase não temos engenheiros experientes no mercado cujo o foco é liderar a inovação e treinar os mais jovens. Na área de tecnologia de ponta, não temos profissionais que podem inventar novas soluções que deixam as atuais mais baratas e desenvolvam produtos novos.

Em países desenvolvidos, é crucial a quantidade de profissionais altamente qualificados e o número de Ph.D. Um doutor pode criar uma indústria inteira apenas como uma nova tecnologia, patentes são uma ótima fonte de renda para quem quer licenciar seu novo projeto, conhecimento novo é uma vantagem estratégica de anos a frente ao seu concorrente.

Não é só uma questão acadêmica, é um plano de desenvolvimento do país. Você provavelmente nunca viu o presidente Brasileiro fazer um discurso destes:

President Obama Stresses Importance of Science and Technology to the Nation's Future from The Academies on Vimeo.

Ademais, ciências exatas sempre foram mal vistas no país, o que desencentiva e muito os jovens do ensino médio a seguirem carreira em engenharia, física e matemática. Isso ainda é pior quando só focamos nas mulheres que se sentem pouco atraídas por estas profissões.

Isto que estou falando de engenharia cujo foco é na construção de coisas. Imagino que deva ser muito pior para pesquisadores na área de Física, Matemática e Química que estão na ponta do conhecimento e estão trabalhando em ideias, descobertas e tecnologias que ainda não se sabem muito bem qual será a utilidade prática. Ou seja, o apoio é mínimo.

A esperança ou as excessões

Há algumas empresas Brasileiras que sabem fazer a diferença:

Embraer: com certeza aviões são a jóia da coroa da engenharia. Fazer um avião seguro, competitivo, econômico é algo que requer muito desenvolvimento de engenharia. A Embraer com certeza de mostrou uma grande excessão produzindo aviões de qualidade e competitivos no exterior (pensando que no mercado, competidores a altura são a Bombadier, Boeing e Airbus, todas de países desenvolidos.

Nubank: esta Fintech vem me chamando muita atenção em vários aspectos. Primeiro por oferecer um produto mais barato que a média do mercado. Segundo por ter um tratamento ao cliente de alta qualidade e por último, tem um processo de engenharia para construção da sua plataforma formidável. Resultado: crescimento exponencial e aportes financeiros.

Conclusões

Infelizmente a nossa cultura empresarial foca muito pouco no desenvolvimento de produtos ótimos, ficando apenas no bom o suficiente.

Sem um foco no longo prazo, sem Pesquisa e Desenvolvimento e com muitas barreiras, estamos condenados a fazer produtos medíocres. O Brasil que é um mercado muito interessante e o brasileiro quer e paga por produtos de alta qualidade. Espero que consigamos superar estas barreiras para conseguirmos ter produtos de ótima qualidade e ter um país desenvolvido.