Há poucos meses iniciei uma carreira paralela como professor particular de programação ensinando Python a um aluno com pouca experiência de programação e ao mesmo tempo profissionalmente virei professor no SENAC-SP no curso de extensão universitária de Testes de Software.

É incrível ver os alunos evoluírem e aprenderem sobre tecnologia e se capacitarem para suas profissões. Mas meu objetivo aqui é falar como eu como profissional evoluí neste processo, as percepções de ensinar me causaram e como desenvolvedores podem aprender com essa habilidade.

Você aprende muito quando se ensina

1. Estudando o assunto

Depois de anos no mercado, a tendência é esquecer da teoria básica e focar no ganho de experiência. Ao voltar à teoria, você lembrará o porquê e como a prática funciona.

O excesso da prática leva a alguns vícios e ao piloto automático. Depois de um tempo, estará acostumado a fazer a tarefa de tal forma que nem se lembra o porque se faz assim. Outra situação comum é fazer a tarefa da mesma forma que aprenderu.

Quando relembro a teoria, começo a questionar se a forma que estou programando ou fazendo testes está sendo a mais efetiva e como posso aplicar a teoria no que estou trabalhando. Ajuda muito a entender os porques das ações e quando é melhor usar uma técnica ou outra.

2. Ao ampliar o poder de abstração

Abstração é a ferramenta mais importante do desenvolvedor, mais do que a linguagem na qual usa como plataforma. Ter uma boa arquitetura de softwares, bons algoritmos e testes que protegem o código são boas abstrações que precisam ser constantemente recicladas. A melhor forma de reciclar uma abstração é a ensinando para alguém.

Explicar um assunto para alguém requer que você o estruture, generalize, resuma e outras atividades para facilitar o aprendizado. Isso aumenta consideravelmente o seu poder de abstração pois sai do seu quadrado e vê as técnicas de outro ângulo.

Isso é provado pela pirâmide de Glasser que mostra o quanto aprendemos (Imagem do site Professor Coruja):

Pirâmide de Glasser

Em uma das matérias do mestrado, aprendi que a minha abstração deve estar tão simples que deve ser possível explicá-la para um leigo no assunto. Quando chegar neste ponto, então o seu trabalho está bem definido para o meio acadêmico.

Melhorar a inteligência emocional

Não só as habilidades técnicas evoluem ao ensinar, mas também a sua habilidades em lidar com pessoas, que também é conhecida como Inteligência Emocional.

1. Você não se lembra quando você não sabia do assunto

Não conseguimos lembrar de como éramos antes de obter o conhecimento. Isto é literalmente a frase de Einstein: “A mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao seu tamanho original”.

No papel de professor, você deve construir o caminho do aprendizado, levando os alunos ao conhecimento. Para isto, deve conhecer a realidade dos alunos.

2. Vê o assunto por outros olhos

Esta parte é fantástica, pois a interação com o aluno é próxima (quase um pair programming) e você vê como ele está pensando e como ele não entendeu o assunto. Isso é ver o problema com os olhos de outra pessoa, a famosa habilidade de empatia.

Lembrando que cada um tem um passado e uma base bem de diferente, o professor consegue se fazer entender quando ele está em sintonia com esta base.

3. Aprende a falar em público

Sendo professor, sempre se fala em público e se o assunto não prender a atenção dos alunos, eles irão se dispersar e não irão aprender.

Ao lecionar, você aprende a se conectar aos alunos, em técnicas para prender a atenção, como fazer pequenas pausas, como revisar o assunto e checar se o aluno realmente aprendeu. A vantagem que o feedback é mais rápido em uma aula do que em um evento.

No meu caso, como já tinha pouco medo de falar em público (ele sempre existe) pelas palestras que já dei, foi fácil lidar com uma sala de aula. Porém, há uma diferença essencial: você é bem-sucedido apenas quando todo os alunos aprendem.

4. Aprende a lidar as suas inseguranças e das outras pessoas

Quando se leciona uma matéria com assuntos diversificados, você não dominará todas as áreas e terá provavelmente que falar sobre coisas com as quais nunca trabalhou e nem viu na vida. Lidar com essa insegurança ajuda muito a trabalhar com desafios em projetos nos quais você não tem experiência e melhora a autoestima.

E do lado do aluno, há uma ânsia e insegurança sobre o assunto, tempo e dificuldade. Você como professor, deve alinhar as expectativas, mostrando o nível de dificuldade e que se demora para aprender por completo e conseguirá no final se seguir a sua aula. Isso ajuda no treinamento de desenvolvedores iniciantes que estão sofrendo com o grande volume de informação no começo de carreira.

Como trabalhar isso sem ser professor?

Algumas dicas de como trabalhar essas habilidades sem necessariamente ser um professor:

  • Faça coaching com devs iniciantes, alinhando as expectativas de performance e tempo e trabalhando a sua abstração nas explicações;
  • Ensine programação ou uma tecnologia para estudantes. Isso pode ser uma fonte de renda menos estressante do que freelas;
  • Use algum conhecimento especialista para palestras. Você terá que ensinar o seu público além de aprender a falar em público;
  • Promova workshops para treinamentos na empresa ou em eventos na comunidade local. Ensinar deve ser sempre um prazer com o foco no desenolvimento das outras pessoas.

Boa sorte!